Uma manhã em dezembro de 2012, na janela de um drive thru de uma cafeteria da rede Tim Hortons em Winnipeg, Canadá, uma cliente pagou pelo seu café e pelo café do carro que vinha logo atrás. Então, a cliente do carro de trás pagou para o outro carro e assim sucessivamente. No final, foram 226 pessoas sendo espontaneamente generosas uma com a outra, em três horas ininterruptas de uma verdadeira “Corrente do Bem”.

Acontece que essas correntes de “pague para o de trás” não são desconhecidas na Tim Hortons (embora sejam geralmente muito mais curtas), e as agências de notícias relataram naquela época o surgimento de muitas dessas correntes em uma variedade de restaurantes e pedágios em toda a América do Norte. Em 2013, um Chick-fil-A, outra rede de restaurantes, mas agora em Houston, experimentou uma corrente de 67 carros. Alguns meses depois, um Heav’nly Donuts, mais uma cadeia de restaurantes, em Amesbury, Massachusetts, teve uma corrente de 55 carros.

Por que essas coisas acontecem? Uma possibilidade é que a generosidade entre estranhos possa ser socialmente contagiosa. Sim, um contágio social. De acordo com essa teoria, se você receber ou observar um ato de ajuda, ficará mais propenso a ajudar os outros, mesmo que sua própria ação não seja diretamente retribuída ou recompensada. Em vez de retribuir alguém por lhe ajudar, você faz algo por outra pessoa, por gratidão. Esse é o conceito da “Corrente do Bem”.

Nos últimos anos, cientistas sociais realizaram experimentos demonstrando que o efeito de um único ato de bondade pode, na verdade, repercutir em uma rede social, desencadeando correntes de generosidade que vão muito além do ato original. Mas será que o mesmo efeito acontece quando apenas testemunhamos um ato generoso, ao invés de realmente nos beneficiarmos de um?

Em um experimento cujos resultados foram publicados em fevereiro de 2014 na revista “PLoS One”, e depois divulgados em março do mesmo ano pelo jornal “The New York Times“, Milena Tsvetkova e Michael Macy, pesquisadores da Cornell University, de Nova York, estudaram as duas possibilidades. Descobriram que receber e observar generosidade pode aumentar significativamente sua probabilidade de ser generoso em relação a um estranho, mas que se você observar um nível suficientemente alto de generosidade, sua disposição para ajudar cai drasticamente – você se torna um “espectador” que acha que não tem nada mais a colaborar. Isso acontece por exemplo quando é necessária uma grande ajuda humanitária, em que no começo todos estão dispostos a ajudar, mas na sequência as ajudas vão se reduzindo, reduzindo, até quase não existirem.

Para o estudo, foram recrutados mais de 600 participantes do “Amazon’s Mechanical Turk”, um mercado online em que os usuários anunciam projetos serem concluídos, com remuneração. Os pesquisadores alistaram os usuários para participarem do que chamaram de “Jogo do Convite”. As pessoas eram informadas de que poderiam participar do jogo e ganhar um bônus em dinheiro – mas apenas se recebessem um convite por e-mail.

Para começar, Milena e Michael criaram alguns convites, escolhendo participantes aleatoriamente. Aqueles que receberam convites foram informados de que tinham sido designados para jogar o jogo em um grupo de 150 pessoas. Cada “convidado” teve a oportunidade de criar um convite adicional para um estranho em seu grupo. Esse convite seria anônimo e para um desconhecido.

Os participantes foram aleatoriamente designados para uma das quatro situações:

  1. Recebendo ajuda (eles receberam um convite anônimo criado por outro participante);
  2. Observando ajuda (eles testemunharam outros participantes anonimamente doando convites);
  3. Recebendo e observando ajuda; e
  4. Nenhum dos dois. (Na condição “nenhum dos dois”, os participantes receberam o convite diretamente dos pesquisadores, que estabeleceram uma condição básica para isso, comparando o que aconteceu quando esses mesmos participantes receberam ou observaram ajuda, ou em ambos os casos).

Então, observaram como cada participante agia em situação.

O que descobriram?

Uma má notícia sobre a vontade de ajudar. Aquilo que eles chamaram de “o efeito espectador”: quando os participantes observaram um nível baixo de ajuda, aumentaram sua própria probabilidade de ajudar; mas quando eles observaram um alto nível de ajuda, eles não se ajudaram – eles pareciam sentir que seu próprio sacrifício não era mais necessário. Esse achado foi consistente com muitos estudos anteriores sobre “vagabundagem social”, “andar livre” e “disseminação de responsabilidade”. Lembra dos casos de ajuda humanitária depois de uma catástrofe natural?

A boa notícia é que o grupo que estava “recebendo ajuda” aumentou consideravelmente a intenção de ser generoso com um estranho, e os participantes que se beneficiaram da generosidade dos outros também se tornaram menos suscetíveis ao “efeito espectador”, quando eles próprios observaram altos níveis de ajuda dentro do grupo.

Os cientistas assim concluíram que observar um ato de bondade provavelmente desempenha um papel importante no estabelecimento de uma cascata de generosidade em movimento, já que muitas pessoas podem ser influenciadas por ele. Mas o mais importante que eles concluíram é que somente recebendo um ato generoso é que as pessoas tendem a praticar um outro ato generoso a um estranho, de tal maneira que se dá vida, então, a uma “Corrente do Bem”.

A boa notícia é que o grupo que estava “recebendo ajuda” aumentou consideravelmente a intenção de ser generoso com um estranho

O que essa pesquisa tem a nos trazer de bom? Da próxima vez que você parar para ajudar um estranho ou para agradecer por algo que tenham lhe feito, você pode estar, com esse ato, ajudando não só aquela pessoa em particular, mas potencialmente criando uma corrente de ajudas e gratidão muito maior, que tem o poder de se propagar pelo mundo. Bacana né? E aí vem o mais interessante… quem sabe essa onda do bem não chegue de volta diretamente a você?

Você já viveu uma “Corrente do Bem”? Se sim, conta pra gente como foi! Se não, que tal você mesmo começar uma? Como? Pratique um ato de generosidade, ou agradeça alguém por algo de impacto na sua vida, e peça a ela para fazer o mesmo a outra pessoa…

Alguma ideia de como conseguimos juntos fazer essa ciência da “Corrente do Bem” acontecer mais vezes? Conta pra gente aqui!? Estamos à sua espera!